A Comunidade Humana
Comunidade
é o encontro dos que se amam. É a volta dos que saíram. É a chegada dos que
foram. É a saída dos que chegaram.
Ser vivo
é ser comum. Ser sábio é ser comum. Ser bom é ser comum. Ser comum é ser tudo
aquilo, que se deixou de ser, porque se constituiu em isolamento sem saída. A
vida é uma saída, mas não viver em comum, é se fechar em si mesmo, e não
obedecer à própria vida, que abre todas as saídas, para aquele que chega e para
aquele que sai. Somos sempre o que somos, mas podemos ser mais do que o que
somos, quando estamos em comum, pois a comunidade faz acontecer, faz viver, faz
andar e progredir, porque é a saída da morte e da estagnação do viver em si
mesmo. Em si mesmo, porque se esqueceu do outro. O outro compõe a vida para mim
e para ele. E uma vida sem composição de um e de outro, nada tem de comum, nada
tem de social, nada tem de união, nada tem de progresso e de amor.
Pois,
amar conta com o outro, porque o objeto amado está fora de si próprio, e se
estende pelo mundo humano, isto é, só pode acontecer no comum, e não no isolado
de cada um. Por isso, a comunidade é o campo do amor, da vida, do movimento em
direção à existência, e ao não terminar nunca de existir e de fazer, porque o
existir e o fazer são a essência humana, que faz a existência se concretizar
como realidade sem fim.
Vivemos
em nós e nos outros, mas o parar de viver reduz a vida em si mesmo e no outro.
E pára-se de viver, quando o comum não existe, como ideal de vida. Essa
estagnação do viver é o retrocesso do amor, e de suas realizações no campo da
vida. A vida é a luz do tecido humano, que forma o conjunto comum de uma sociedade
de seres sem fim. Porém, colocar fim em cada indivíduo, dentro do social, é
romper o tecido, que cobre toda uma comunidade de vida. E para que uma
comunidade de vida tenha a sua extensão natural, é necessário que a vida a
impulsione, mas a vida não se desloca para frente sem o amor, pois o amor é que
fundamenta e dá a razão de viver e de existir. Não vemos a vida se não vemos o
amor, mas fingir que ama é enganar a vida, dentro de si mesmo, e trocar o andar
pelo parar. É tornar a morrer, depois que a vida já estava constituída, como
elemento fundamental do fazer humano e do realizar da existência.
Para que se seja comum, é preciso que
se seja a mais de si mesmo, se veja além de si mesmo, se ande em direção ao
outro, se faça pelo e com o outro, sem esperar que alguém me retorne algo, pois
a vida é o próprio retorno do ato de viver daquele que vive em si mesmo e no
outro. Viver é movimentar o universo e o movimento do universo vem de um e vem
do outro, e isto é que forma o comum, porque o comum não pode ser de um só.
Ninguém
mora na comunidade, pois a comunidade, que é a obra do comum, só pode ser um
fato, se o comum for o seu impulso e a sua constituição intrínseca, pois sem
isso, teríamos um lugar com um nome e uma maneira de estar ali, para morrer
mais uma vez. Como a comunidade é vida, ali não há morte, e, em não havendo
morte, todos formam um, enquanto um não desaparece pela morte, porque o todo é
que o sustenta e o vitaliza no princípio do existir pelo amor. O comum são
todos e não um só. Pois, um só, dentro de si mesmo, é o egoísmo cristalizado, e
sem vereda para o outro, e isso não pode formar o comum, porque tem outra
natureza, isto é, tem a natureza de um, e não de um com o outro, que é a
natureza do comum. Comum é com o outro, e não estar com o outro é estar fora da
vida, pois para estar consigo mesmo, é preciso estar vivendo, e ninguém está
vivendo, senão com o outro, porque não há vida de um só. Se assim fosse, a
comunicação não teria razão de ser, de existir entre um e outro. Pois, a
comunicação é a relação de vida, que existe entre um e entre todos, e isso, por
si só, já explica e justifica o comum. Mas, explicar e justificar o comum,
ainda não faz perdurar e existir uma comunidade humana, porque o humano precisa
se estabelecer na sua plenitude, para que o comum seja comunidade.
Fazer o
comum não é uma sociedade e nem uma soma de elementos, é uma fusão de
interesses e de objetivos, que mantêm o interesse pela vida, porque a vida é o
grande e o único objetivo do comum. Comum, que abrange o isolado e o social na
mesma esfera de interesse. Pois, quando o isolado se dispõe a ser comum, ele
precisa do outro para sair de si mesmo, e quando o comum age e se desdobra em
seus objetivos, ele necessita de cada pessoa em si, para desdobrar a vida e
manter o comum. Comum, que é feito de cada elemento isolado, mas estendido no
mesmo objetivo, pelo amor e pelo viver.
Ser um e
ser todos, eis a essência do comum. Essência, porque no centro do comum existe
um e existem todos ao mesmo tempo. Pois, não reconhecer um que está no conjunto
é fazer reinar a injustiça, enquanto que um não reconhecer a necessidade do
conjunto, para que um exista, é desconhecer a sua própria origem e
perpetuidade, como ser e como humano que é. É necessário, portanto, andar com
um e com todos, pois todos só podem existir e serem reconhecidos por um, e um
ser reconhecido por todos. Todos, que lhe dão a própria existência em separado,
para formar o conjunto e viver. A vida é conjunto, é ligação, é estendimento
por um e por todos ao mesmo tempo.
Já se viu
que não há vida sem todos, e não há um sem o outro, e não há o comum no
isolado, mas o isolado é que forma o conjunto, e o conjunto é que possibilita
ao isolado ser indivíduo, e existir na plenitude do ser, como existente. Essa
ligação e fusão fazem o comum, e o comum faz a comunidade, e é esta comunidade,
que forma o social humano, e não o humano, como massa informe e sem coesão de
objetivo e de existencialidade perene no campo da vida. Pois, a vida não é um
mero conceito, é uma extensão, que tem seu fundamento no projeto humano de
viver, e não apenas do simples existir, como número de um conjunto qualquer.
Pois, isso é a sociedade informe e vazia de sentido, e de plenitude, porque ali
falta o elemento humano, e só existe o cálculo estatístico da existência.
Existência, que não tem sentido, porque é uma sociedade que não se associa, se
dispersa, não se une, se separa, não convive, se mata e se anula, não se ama,
se odeia e se desfaz, até a extinção de um e de todos.
Para que
isso não aconteça, é necessário que o conjunto se coloque juntamente com cada
um, e cada um se coloque no conjunto, para buscar a vida pela prática do amor.
Amor, que faz a plenitude da existência de um e de todos, no contexto comum,
que forma o conjunto comunidade.
A
comunidade, portanto, não é um lugar e nem uma residência. A comunidade é um
conjunto vivo, que sobrevive em um, ou em qualquer lugar. Pois, sobreviver em
um lugar qualquer é um mero detalhe do tempo. E, a comunidade está além de
qualquer tempo, porque é união perene, sem limite e sem dimensão.