Minha Primeira Experiência
por Carlos Takanori, 1978,
Desde
muito cedo a idéia do mundo espiritual já existia de alguma forma
dentro de mim, mas nunca a certeza de nada. Procurei respostas, mas
nunca as encontrei de maneira que fosse satisfatória para mim. Com o
falecimento de meu pai, a busca de um elo de ligação com o mundo
espiritual foi ainda maior. E durante muito tempo estive atento a
alguma coisa que me indicasse este caminho. Um dia soube, através do
noticiário, da existência de um curso denominado “Técnica Física do
Desenvolvimento da Autoconsciência”. Não sabia exatamente do que se
tratava, mas o assunto, desde o início, já me fascinava. Logo passei a
fazer parte de um grupo de alunos, que também estavam com o mesmo
entusiasmo, e o assunto era saída do corpo físico, conscientemente,
através de exercícios práticos.
Iniciamos este curso com uma
turma de 17 alunos com aulas semanais por um período de 03 meses. Achei
que o tempo proposto era muito pequeno em função do objetivo, mas,
enfim iniciei-me com muito afinco. Passado o primeiro mês, o número de
pessoas que participava deste curso havia se reduzido para a metade.
Pareceu-me que o interesse das pessoas aos poucos estava diminuindo,
talvez porque a “Técnica” não correspondesse aos seus anseios iniciais,
mas, para mim, era apenas o primeiro mês.
No segundo mês, o
grupo se reduziu ainda mais e éramos apenas cinco. Finalmente, no
terceiro mês, restavam apenas três pessoas inclusive eu. As outras duas
pessoas relatavam experiências incríveis que eu não compreendia.
Falavam sobre viagens que estariam fazendo no interior de uma flor, das
sensações e beleza que encontraram durante o relaxamento. E tudo aquilo
se tornou muito estranho para mim. Até mesmo a maneira de se vestirem
era curiosa, pois uma delas usava um manto colorido parecendo um
sacerdote ou coisa assim. A verdade é que em matéria de experiência eu
não havia observado ou sentido nada ainda. E assim terminou o curso.
No
último dia de aula, conversando com a minha orientadora, fui
aconselhado a não me preocupar com a falta de resultados, pois isto me
aconteceria mais tarde, desde que eu continuasse com os exercícios que
havia aprendido. Também me foi dito que os maiores obstáculos iniciais
normalmente eram a ansiedade e o medo e que a força de vontade e a
perseverança me trariam resultados. Fui aconselhado a, no mínimo,
dar-me a chance de provar a mim mesmo que tudo aquilo não funcionaria.
Este esclarecimento foi muito importante para mim, pois determinei, a
partir daquela data, uma meta a alcançar.
Após dois meses de
constante exercício, numa determinada noite acordei para ir ao
banheiro. Ao retornar a minha cama observei o relógio de parede que
marcava exatamente quatro horas da manhã. Deitei e pensei: “Vou
aproveitar para fazer o exercício”. E assim iniciei. Durante o
exercício comecei a sentir uma curiosa sensação física em meu corpo.
Vibração, peso, e de repente senti-me arremessado para frente, caindo
no chão. Senti minha queda e, quando estava no solo, não senti nenhuma
dor e pude sentir com as mãos o chão frio. Levantei-me devagar e fui
observando a claridade do quarto. Mas eu tinha certeza de que minutos
antes havia apagado as luzes. Olhei para trás e vi, com espanto, o meu
corpo deitado sobre a cama. Senti que, pela primeira vez, eu havia
conseguido sair do meu corpo físico com toda a certeza de consciência
plena. Observei por um instante meu corpo, sobre a cama, que
tranqüilamente respirava e dormia. Resolvi, em seguida, sair do quarto
e quando toquei na maçaneta da porta a minha mão, ao fazer um esforço
para abri-la, penetrou dentro da porta e meu corpo também a atravessou
rapidamente sem sentir nenhum obstáculo. Achei aquilo incrível e, por
três vezes seguidas, repeti o ato de entrar e sair do quarto daquela
forma. Fui para a sala e me sentei no sofá, sempre sentindo uma imensa
alegria por estar vivendo essa experiência e também por ter conseguido
aquilo que sempre almejei.
Esperei um instante e resolvi
sair de minha casa, sempre atravessando as portas da maneira inicial.
Ao passar por um corredor encontrei uma pessoa. Ela estava de pé e
ficou muito surpresa em me ver. Não me disse nada e eu também apenas me
limitei a cumprimentá-la. Saí. Do lado de fora saltei para cima e, como
um pássaro, pude flutuar e deslocar-me por cima da casa, não sentindo
medo da altura em que me encontrava. Apenas sentia uma grande
satisfação. Resolvi voltar para dentro e o fiz pelo mesmo caminho.
Entrei em casa, observei que o relógio estava marcando quatro horas e
trinta minutos e que exatamente trinta minutos antes havia observado as
horas. Entrei no quarto, aproximei-me do meu corpo e, como se quisesse
dormir, deitei-me sobre o corpo e, em segundos, senti minha matéria e
abri os olhos. O quarto estava escuro e eu tinha a certeza de ter
vivido aqueles momentos. Isto aconteceu há trinta anos e, hoje, a cada
nova saída, sinto sempre a mesma satisfação da minha primeira
experiência.